Roleta Russa

Automat, Edward Hopper (1927)


    Qual a probabilidade de te apaixonares pelo homem ideal? Aquele que sempre procuraste durante toda a tua vida, que reúne o intelecto e o físico que te vinha à ideia quando fechavas os olhos à noite e te permitias pedir a qualquer ser transcendental “por favor, faz com que exista”.
    Nem toda a gente tem esse privilégio. Muitas mulheres procuram a vida inteira, sem encontrar, cegas a outros tão bons ou melhores, mas que não somam todos os requisitos. E outras encontram, da forma mais inesperada e, em vez da euforia tão característica da alegria da descoberta, o sentimento que predomina é a tristeza. Porquê? Como será possível? É porque não é o homem certo, ela enganou-se, uma vez mais, diriam vocês. Mas não, nada disso. Ela acertou, tem a certeza, mas ele…
    Há, pois, um “mas”. Um sinal de “stop” que obriga a parar e a analisar as hipóteses, que, à primeira vista, parecem nulas, embora regadas de esperança, essa comichão ténue, mas constante. O “mas”, esse maldito obstáculo que nos separa da meta da felicidade às vezes por escassos centímetros, é uma outra pessoa. Uma mulher que chegou primeiro, arrebatou o coração do homem que achamos que nos esteve sempre destinado, deu-lhe a experimentar sensações inesquecíveis que o marcaram tão indelevelmente que combater uma tal ligação será como destruir as pirâmides de Gizé.
    E o que resta a quem se depara com a porta entreaberta? Uma nesga sádica a mostrar uma sala feliz, um quarto ardente, uma cozinha apaixonada, onde se trocam juras de amor. Onde há gritos, e amuos, e zangas, e um beijo para os dissipar. E nós, cá fora, sentimos uma súbita e inesperada intempérie abater-se sobre o nosso corpo hirto, pregado ao chão pelo choque e pelo receio de abalar essa felicidade que a nossa chegada compromete. Nesse instante somos água da chuva, escorrendo rua abaixo, mais uma gota num riacho de desilusões, que, quando o sol nascer, se evaporará.
    Sou a rainha dos casos perdidos. Talvez o meu destino seja a solidão. Uma solidão de rejeição, onde só há espaço para mim, a minha imaginação e a mágoa inerente a essa actividade. 
    Não posso – não devo – estragar o baile a esta Cinderela desconhecida, que está no outro lado deste triângulo. Uma princesa de sapatos de cristal, a quem foi prometida a recompensa do conforto de um abraço forte, do calor de um olhar embevecido que vê virtudes sem filtros, do amor que a coloca em primeiro lugar entre as demais.
    E eu sou aquela rapariga insignificante sentada à janela, a quem tudo foi negado. Uma, duas, três, quatro vezes. Que segue esta rotina cinzenta onde não há bailes, nem sapatos de cristal, nem ninguém que estenda a mão num convite para a valsa. 

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